Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

Fernando Pádua: Viver para o coração

Fernando Pádua: Viver para o coração
18 Janeiro 2009

 

É um dos cardiologistas portugueses mais conhecidos: simpático, amável e atencioso. Professor catedrático de Medicina Interna e de Cardiologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, Pádua traz consigo um percurso brilhante. Aos 39 anos já tinha subido ao grau de professor catedrático.

 

 

Da sua numerosa bibliografia constam perto de 300 trabalhos científicos publicados. Médico, investigador, Fernando Pádua tem sido, ao longo das últimas décadas, o rosto da luta contra as doenças do coração.

 

 

Nasce em Faro quase no final dos anos 20, mas considera-se alentejano de coração. É em Almodôvar que vive os primeiros anos e onde frequenta a instrução primária. Faz uma pausa no discurso e relembra a terra que lhe faz brilhar os olhos: “Só quem lá viveu é que gosta do Alentejo no Verão: terra seca, palha, restolho, aquilo é um encanto...” Aos 10 anos, a família muda-se para Lisboa, mas mantém a ligação a Almodôvar, para onde continua a passar os longos dias de férias de Verão. “Fui muito feliz no Alentejo”, recorda. Já em Lisboa frequenta o Liceu Gil Vicente. “Não era um liceu com ambições e eu descambei um bocado”. Falta às aulas para ficar na brincadeira. “Quase ia chumbando um ano com faltas”. Depois muda para outro Liceu, o Passos Manuel. “Era um Liceu com mais ambições que puxava pelas pessoas. Fui quase o melhor aluno de português”, recorda, “e isso foi o estímulo para recomeçar a estudar”. Acaba o 7º ano como o melhor aluno do curso. E tinha chegado, então, a altura de decidir a profissão. Jura que a família nunca o influenciou para ser médico. “Mas incentivavam-me a estudar”.

 

 

A única influência que teve para seguir Medicina chegou-lhe através de um tio que vivia em Castro Verde onde tinha uma farmácia, e acalentava o sonho de ter um médico na família. Mas Fernando, nos seus 18 anos, ainda não tinha decidido o rumo certo. “Quando acabei o Liceu e fui o melhor aluno tinha ambições de ser qualquer coisa: médico ou engenheiro.” Pensou, então, em concorrer para os dois cursos. Faz primeiro o exame para a Faculdade de Medicina e é admitido. Faltava, no entanto, o exame para o Instituto Superior Técnico (IST). “Até tinha marcado com um professor para me dar explicações de matemática, mas, entretanto, fui chamado para a tropa.” O caminho estava traçado, mas, segundo recorda, “foi com esta imponderabilidade e não determinação que acabei por desistir do curso do IST”.

 

 

Da desilusão ao fascínio

 

 

Os primeiros anos do curso de Medicina, confessa, foram uma desilusão. “A anatomia, fisiologia ou ver cadáveres era uma coisa horripilante. Só no 4º ano é que, pela primeira vez, tivemos aulas com doentes.” Fica deslumbrado. Tinha a certeza que escolhera a melhor profissão. Foi no Hospital dos Capuchos que começa a ter contacto com os princípios de Medicina. Tudo “era um encanto”.

 

 

O contacto com os doentes entusiasma-o cada vez mais. É também nessa altura que surge o fascínio pelas doenças do coração. Ao mesmo tempo em que finaliza o curso de Medicina, Pádua continua com a ligação ao Alentejo. Em Almodôvar já conhecia o Doutor Nazaré, médico da aldeia, com quem troca conhecimentos. “Ele contava as experiências com os doentes de lá e eu contava o que ia apreendendo por Lisboa.” Entretanto, em todo o mundo vivem-se as consequências da segunda grande guerra mundial. Portugal não é excepção e a família do futuro cardiologista também passa por dificuldades. Mas Pádua diz-se protegido pela sorte.

 

 

Porque, apesar de a família não ter muito dinheiro, durante os estudos, ganhou sempre “alguns trocos” a passar sebentas e apontamentos à máquina. Com esse dinheiro comprou livros e até o esqueleto necessário para as aulas de Anatomia. Acaba o curso de Medicina com a brilhante média de 19,4. E a sua estrela da sorte continua a guiá-lo. Estamos nos anos 50, Pádua ganha uma bolsa de estudo e ruma a Boston, nos EUA. «Foi uma experiência incrível. Ainda hoje, tudo o que eu faço vem muito daquele ano que passei em Harvard.»

 

 

De regresso, e com o espírito cheio de conhecimento, começa a ver doentes com o professor Eduardo Coelho, que segundo Fernando Pádua, era o melhor cardiologista português. E cresce o interesse pela cardiologia. “Na cardiologia havia factos. Podia deduzir-se uma coisa, mas registar outra com aparelhos; podia analisar o sopro, ver na radiografia a forma do coração”. Sete anos depois já tinha feito doutoramento e com 39 anos era professor catedrático.

 

 

Entusiasmo na vida

 

 

Não é por acaso que Fernando Pádua é um cardiologista de sucesso, o homem que ao longo dos últimos anos tem dado a cara pelos problemas do coração, o rosto da luta contra o tabagismo. É que, segundo confessa, entusiasma-se com tudo, em especial quando tem companhia. E apesar dos 74 anos, Fernando Pádua tem a vivacidade de quem tem 20.

 

 

O entusiasmo brota no discurso, na postura física, na amabilidade. O segredo de toda a agilidade está na forma como vive a vida. Não combate o stress, mas também nunca tomou medicamentos para o combater. Porque a solução, segundo afirma, é conseguir viver com ele. “Um pouco de stress é bem-vindo na nossa vida. Mas, eu nunca fui muito stressado. Em época de exames estava sempre na maior das calmas.” Ao contrário do que se possa pensar, este militante anti-tabaco fumou até aos 30 anos. “Fumava meio maço por dia. Quando ficava nervoso lá puxava pelo cigarro, mas, naquele tempo, até nas enfermarias se fumava. Não se conheciam bem os perigos do tabaco.” Deixa de fumar quando, nos anos 60, se começaram a saber os resultados dos primeiros estudos sobre os malefícios do tabaco. “Foi fácil porque não era toxicodependente. Tenho pena dos que querem parar e não conseguem: porque sei que se pode fumar e pode parar.” Quanto à alimentação também peca pela boca. “Quem não comete excessos”, comenta. Mas se come demais numa festa, no dia seguinte há penitência. Vigia o peso e diz com orgulho ainda envergar o smoking do casamento. “Tenho o mesmo peso que tinha quando fui à tropa...mas não o tenho através de dieta... é alimentação inteligente: vegetais, fruta, sopa de legumes e reduzir a quantidade de gordura ingerida.”

 

 

Como o comum dos mortais, Fernando Pádua assume-se um “quase cafeínodependente”. É que sem café «não me sinto a carburar». Porque, ainda por cima, da época dos estudos ganhou o hábito de se deitar tarde. “Raramente me deito antes das três da manhã e ainda vou ler para a cama.”

 

 

Artigo realizado em 2001 e revisto em 2009

 

Paula Pedro Martins
jornalista

publicado por silvia às 00:18

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